Nunca deixaram você falar ou ser quem realmente é. Não que isso esteja acontecendo, foi apenas um pensamento que me ocorreu há um tempo atrás. Ninguém nunca deixou que eu gostasse de você, como se tivesse mudado alguma coisa nesse roteiro. Mesmo sem permissão, eu amei a cor do seu cabelo iluminado pelo sol e o modo que sorria pra qualquer pessoa ou pra mim, prestava atenção em cada detalhe. E continua a mesma, com tantas mudanças e anos perdidos. Continua a mesma para mim, a mesma imagem que tive quando te vi pela primeira vez, aquela garota que idealizei. E você mudou, da água pro vinho de um jeito que não queria, mas mudou. Não havia nada que pudesse impedir.
Aqui na minha mente eu quero que continue assim. Do jeito como sonhei que era e como poderíamos ser hoje, mesmo se nem por um segundo sequer eu lembrar de como éramos, de como nos comportávamos.
Deformamos tanto nosso passado, e eu coloquei tanto entulho e ressentimento no presente por sua causa. E não imagino meu futuro, e agora eu vou esquecer, simplesmente vamos fazer um faz-de-conta e tudo vai desaparecer quando contarmos até três. Se conseguir enxergar aquela estrela, ali no céu, na parte mais azul e pedir, logo um outro dia vai nascer muito rápido. E nesse caso acho melhor eu nunca mais ver seu rosto novamente, meu amor. Sua pele branca e pura continua a se espalhar nas memórias que insisto em guardar apenas por teimosia. E assim se contrasta com a escuridão que todas as forças externas se transformaram. Simplesmente não consigo esquecer. Você está longe mas, ainda continua sendo minha dor e a desilusão. Aliás, a única coisa que deixou pra mim foi desilusão. Não se preocupe, minha querida. Estou bem. Estou muito bem. Talvez isso seja uma despedida. Não que eu vá me sentir triste ou rejeitada. Escolhi te deixar para trás, eternamente. Fazer seu rosto queimar no meu inferno. Quero que saiba: você não fará mais parte do meu passado, seu lugar nunca foi aqui, ou em qualquer lugar. Sempre afastou de perto todas as pessoas que um dia te demonstraram o que mais procura nessa sua vida medíocre, mesmo estando sozinha é dotada de um orgulho estúpido. Fique bem aí onde está. Com seus feitiços e defeitos, tente ser feliz assim, é o mínimo que pode fazer neste momento. Um dia sentirá necessidade de conversar com alguém, com qualquer um. Não conte comigo. Estarei no fim dessa história acenando pra você, e desta vez eu brilharei novamente, e sorrirei não por maldade.
Pode ser que realmente me lembre do seu nome até o dia em que minha vida acabar se nada disso der certo. Mas agora eu sinto sua falta menos e menos ainda. Os dias passam, e depressa. Talvez seja a primavera, o alívio e o calor para os nossos corações. Ou talvez meu amor, nós tenhamos finalmente, aprendido a dizer adeus.
domingo, 28 de setembro de 2008
sábado, 27 de setembro de 2008
Última tempestade.
O dia amanhece mais uma vez nessa cidade, nesse bairro. Às vezes por mais triste que isso possa soar, preferia que não nascesse, não desse jeito. Por que simplesmente, essa luz na janela iluminando as paredes do quarto de amarelo através dessas frestas irregulares, só me faz lembrar que estou sozinha. E que não estou tão feliz assim. Tento levantar, e sinto o ar quente ao meu redor. Não é alegria, e meu coração começa queimar numa dor aguda. Eu sei muito bem que você não está mais aqui, e sua presença de algum jeito ainda tenta me abraçar. Então vejo o dia passar lento, se arrastando e eu puxo alguma conversa com as sombras que ficaram pra me acompanhar no caminho de ida pra qualquer lugar, e canto alguma coisa pelo caminho de volta pra casa; olho as árvores, as folhas crescem e vão embora com o vento morno.- Você me deixa assim, olha só, sou um caso perdido. Não sei viver sozinha, pareço uma lunática, uma depressiva sem amor. - Penso, quando está pra anoitecer. Todos os sentimentos ficam vulneráveis a qualquer coisa.
- Me deixe ir embora. - Suplico, como se você pudesse me ouvir, quase grito pra sala vazia. E as cortinas me encaram com uma expressão triste.
- Isso foi o que não levou de volta, espero que esteja feliz. - Declaro, como se fosse a última carta que nunca receberá. Que nunca terá em suas mãos.
- E eu tenho medo, um medo muito grande de não ter o mesmo brilho saindo dos meus olhos. - Confesso, me observando no espelho. Um olhar vazio num reflexo turvo.
- Não quero ficar presa a isso por muito mais tempo. Não suportaria apenas amar de verdade uma vez na vida. - Tento enxergar se há alguma coisa de profundo em mim mesma, e só vejo o que tento esquecer, o que quero que vá embora e volte nunca mais.
- Talvez eu estivesse menos mal se tivesse morrido. Me deixado pra sempre, sem alguma chance de te encontrar em qualquer semana pelas ruas. Sem ter essa sorte e azar. - Quase imploro, e fecho os olhos.
- Vá embora! Não gosto mais de nada que venha de você. - Então choro, choro muito. As lágrimas enchem o colchão, molham meu rosto e escorrem para o travesseiro. Não consigo arrancar, deixar isso embora. É parte de mim. Assim, neste transe, durmo como pedra. Sem sonhos reconfortantes. E você me aparece. Como uma visão e me fala coisas torturantes, e eu finjo concordar em ir embora. A culpa é minha, concordo em fazer com que você morra em mim. Maldito orgulho, maldito amor suicida. Depois o cheiro que você tinha, o perfume que costumava usar preenche a atmosfera, se encaixa em mim. E fica impregnado em minhas narinas, me enlouquece, me faz falta. Você me faz muita falta, é uma mancha em minha memória, em minhas lembranças, passagens da minha pós-infância, na minha alma... enfim; Me dê permissão de chorar, de sofrer todos os dias e todos os meses até seu aniversário, ou até o próximo verão, ou talvez o inverno. Quem sabe na outra primavera que um dia vai vir pra mim, eu consiga lembrar do teu rosto como você tivesse sido uma pessoa interessante que um dia encontrei em qualquer lugar. Queria, insanamente eu sei, escutar sua voz.Me diga pra ir embora. Me deseje o que ainda tem que desejar, me diga que estou livre, e que posso sim me apaixonar novamente sem lembrar do que passou. Me pergunte se está tudo bem. Eu queria tanto ouvir sua voz, ver seu rosto, ver que seu sorriso era real, sentir o seu perfume, ver que eu posso viver com sua ausência pra sempre. Queria te levar pra casa. E colocar um final nisso.
- Essa é última vez. Por favor, meu amor, pela última vez.
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