sábado, 27 de setembro de 2008

Última tempestade.

O dia amanhece mais uma vez nessa cidade, nesse bairro. Às vezes por mais triste que isso possa soar, preferia que não nascesse, não desse jeito. Por que simplesmente, essa luz na janela iluminando as paredes do quarto de amarelo através dessas frestas irregulares, só me faz lembrar que estou sozinha. E que não estou tão feliz assim. Tento levantar, e sinto o ar quente ao meu redor. Não é alegria, e meu coração começa queimar numa dor aguda. Eu sei muito bem que você não está mais aqui, e sua presença de algum jeito ainda tenta me abraçar. Então vejo o dia passar lento, se arrastando e eu puxo alguma conversa com as sombras que ficaram pra me acompanhar no caminho de ida pra qualquer lugar, e canto alguma coisa pelo caminho de volta pra casa; olho as árvores, as folhas crescem e vão embora com o vento morno.
- Você me deixa assim, olha só, sou um caso perdido. Não sei viver sozinha, pareço uma lunática, uma depressiva sem amor. - Penso, quando está pra anoitecer. Todos os sentimentos ficam vulneráveis a qualquer coisa.
- Me deixe ir embora. - Suplico, como se você pudesse me ouvir, quase grito pra sala vazia. E as cortinas me encaram com uma expressão triste.
- Isso foi o que não levou de volta, espero que esteja feliz. - Declaro, como se fosse a última carta que nunca receberá. Que nunca terá em suas mãos.
- E eu tenho medo, um medo muito grande de não ter o mesmo brilho saindo dos meus olhos. - Confesso, me observando no espelho. Um olhar vazio num reflexo turvo.
- Não quero ficar presa a isso por muito mais tempo. Não suportaria apenas amar de verdade uma vez na vida. - Tento enxergar se há alguma coisa de profundo em mim mesma, e só vejo o que tento esquecer, o que quero que vá embora e volte nunca mais.
- Talvez eu estivesse menos mal se tivesse morrido. Me deixado pra sempre, sem alguma chance de te encontrar em qualquer semana pelas ruas. Sem ter essa sorte e azar. - Quase imploro, e fecho os olhos.
- Vá embora! Não gosto mais de nada que venha de você. - Então choro, choro muito. As lágrimas enchem o colchão, molham meu rosto e escorrem para o travesseiro. Não consigo arrancar, deixar isso embora. É parte de mim. Assim, neste transe, durmo como pedra. Sem sonhos reconfortantes. E você me aparece. Como uma visão e me fala coisas torturantes, e eu finjo concordar em ir embora. A culpa é minha, concordo em fazer com que você morra em mim. Maldito orgulho, maldito amor suicida. Depois o cheiro que você tinha, o perfume que costumava usar preenche a atmosfera, se encaixa em mim. E fica impregnado em minhas narinas, me enlouquece, me faz falta. Você me faz muita falta, é uma mancha em minha memória, em minhas lembranças, passagens da minha pós-infância, na minha alma... enfim; Me dê permissão de chorar, de sofrer todos os dias e todos os meses até seu aniversário, ou até o próximo verão, ou talvez o inverno. Quem sabe na outra primavera que um dia vai vir pra mim, eu consiga lembrar do teu rosto como você tivesse sido uma pessoa interessante que um dia encontrei em qualquer lugar. Queria, insanamente eu sei, escutar sua voz.Me diga pra ir embora. Me deseje o que ainda tem que desejar, me diga que estou livre, e que posso sim me apaixonar novamente sem lembrar do que passou. Me pergunte se está tudo bem. Eu queria tanto ouvir sua voz, ver seu rosto, ver que seu sorriso era real, sentir o seu perfume, ver que eu posso viver com sua ausência pra sempre. Queria te levar pra casa. E colocar um final nisso.
- Essa é última vez. Por favor, meu amor, pela última vez.



Um comentário:

( ch' disse...

uui, sexy.
juro que ameeei o blog.
vai escrever que nem eu, eh? ;D

beeijo'